Liturgia

A Imaculada Conceição

No Advento refletimos muito sobre Nossa Senhora – Aquela a quem o Anjo Gabriel chamou de “Cheia de Graça”. A Igreja celebra, no dia 8 de dezembro, a Solenidade da Imaculada Conceição. Vamos compreender o quê significa essa data e esse título de Nossa Senhora!

O Dogma da Conceição Imaculada de Maria foi proclamado pelo Papa Pio IX em 8 de dezembro de 1854, na Bula  Inefabilis Deus (Bula é um documento pontifício que é lacrado com uma pequena bola – em latim, “bulla” – de cera ou metal, em geral, chumbo – “sub plumbo”. Por uma bula o Papa geralmente exprime algo de muito solene, convoca os participantes de um Concílio ecumênico, cria ou desmembra uma diocese.):

“A doutrina que defende que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus Onipotente, em previsão dos méritos de Jesus Cristo Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda a mácula de culpa original, essa doutrina foi revelada por Deus, e portanto deve ser firme e constantemente crida por todos os fiéis.”

É preciso saber que um dogma não é proclamado de repente, nem define uma opinião pessoal. Um Papa não acorda um belo dia e pensa: “Ah, que dia tão lindo! Acho que vou anunciar um dogma, hoje!”. Absolutamente não é assim.

Já desde os primeiros séculos da Igreja, os Santos Padres citavam a Imaculada Conceição de Santa Maria, entre os quais Santo Efrém (370). Nos princípios do século VIII se teve o primeiro culto litúrgico da Imaculada Conceição na Palestina. Essa festa se estendeu a muitas Igrejas do Oriente e no século X já era obrigatória em todo o império bizantino, e foi introduzida em Roma no ano de 1476 pelo Papa Sixto IV.

Ou seja: já era um sentimento do povo cristão, desde a origem da Igreja, que Nossa Senhora foi a perfeita discípula, Aquela que correspondeu plenamente aos anseios de Deus, movida pela graça. A fidelidade de Maria decorreu de um especial dom divino, o dom de nascer mais integrada do que nós, com mais capacidade de ser livre e de acolher a proposta divina.

O Anjo Gabriel alude a este dom divino quando a saudou como “Cheia de Graça”. Toda envolvida pelo amor divino, Maria soube colocar-se, em total disponibilidade, nas mãos de Deus, para cumprir sua santa vontade: “Eis a serva do Senhor, faça-me em mim conforme a tua palavra”. Uma tal comunhão com Deus excluía qualquer traço de egoísmo e de pecado. Só a plenitude da graça permitiu-lhe ser totalmente despojada de si para cumprir o projeto de Deus. Daqui brota a fé de que Maria, mesmo antes de nascer, foi preservada do pecado.

Mesmo assim, a condição de agraciada por Deus não a dispensou do esforço de ser peregrina na fé, necessitada de crescer e de aprender, como acontece com todo ser humano. A singularidade de Nossa Senhora consistiu em ter trilhado um caminho sempre positivo, sem fazer concessões às paixões desordenadas, ou ao próprio querer. A grandeza de seu testemunho de fé expressou-se na humildade com que o viveu, num contínuo esforço de discernir a vontade de Deus e em ser solícita em cumpri-la.

Por isso comenta o Missal Romano:

Maria é o primeiro e mais belo fruto da Redenção, a obra-prima da criação e a primogênita da família humana, ideada por Deus desde toda a eternidade. A liturgia da Missa é uma contínua exaltação da Virgem “toda bela”, isenta da culpa original, “cheia de graça”, ornada de toda virtude, “glória de Jerusalém”, “honra do nosso povo”, “bendita entre todas as mulheres”.

 

Por que Imaculada Conceição?

Aqui aprofundamos a explicação do dogma. Vale a leitura!

a) “No primeiro instante da sua conceição” – quer dizer: no instante da união da alma e do corpo, que é o momento em que uma nova pessoa humana começa a existir. Maria foi preservada no instante da infusão da alma, não antes nem depois.

b) “Imune de toda a mácula de culpa original” – pela origem natural de Adão, Maria deveria ter contraído o pecado. mas foi isenta da infecção atual e da mácula desse pecado. Como, na ordem presente, isto é obra da graça santificante e não há meio termo entre o estado de pecado e o estado de graça, ensina-nos implicitamente a Bula que Nossa Senhora foi imaculada na sua conceição, porque no primeiro instante da sua existência esteve revestida com a graça, que impediu a mácula do pecado. E de toda a mácula, isto é, da mácula e das consequências do pecado que incluem uma imperfeição moral, como a concupiscência desordenada, a ignorância, etc.

c) “Preservada”. Isentar alguém do mal pode acontecer de dois modos: por uma ação reparadora da culpa, ou por uma ação antecipada e preservadora do mal que se vai contrair. Assim, é melhor libertado o que, condenado ao cárcere, é dele preservado, que outro que, já no cárcere, é depois tirado dele.

d) “Em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Redentor do mundo”. Maria não é isenta da culpa original por virtude própria, mas pela bondade gratuita de Deus e em virtude dos méritos previstos do futuro Redentor do mundo. A redenção de uma criatura podai realizar-se de dois modos: por remissão, libertação, purificando o que já está manchado: é o modo ordinário; e por preservação, impedindo que se manche o que se deveria manchar: é o modo privilegiado.

e) “Por graça e privilégio especial de Deus Onipotente”. A preservação do pecado é um privilégio e privilégio singular, ou porque é único (o que não sabemos), ou porque é de uma excelência extraordinária. É um privilégio contra a lei comum pela qual, em virtude da geração natural, deveria ter Ela incorrido no pecado. É finalmente um privilégio – fruto do Amor divino, Amor que fez de Maria o objeto mais amável, o ser mais encantador do mundo, a pessoa mais atraente entre todas as puras criaturas: Aquele em que Deus vai poder, sem vestígio de pecado, estabelecer a sua morada.

 

Fontes:
O Evangelho Nosso de cada dia, Ano A, ©Paulinas, 1998
Maria no Plano de Deus – J. Armindo Carvalho

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